*Por Alexandre Paoleschi
Este é um trecho original publicado em TIinside.com.br. Leia a matéria completa no TI Inside.
Vivemos em uma era em que os dados não apenas sustentam os negócios, mas definem sua existência. São esses mesmos dados que alimentam decisões estratégicas, conectam operações, garantem rastreabilidade e constroem confiança em mercados cada vez mais voláteis. Não à toa, soluções de backup tornaram-se itens obrigatórios no arsenal tecnológico das organizações. No entanto, a simples adoção dessas ferramentas tem gerado a ilusão de que a proteção está garantida, e esse é um dos riscos mais críticos da atualidade.
Um relatório da IDC aponta que 51% dos ataques de ransomware em 2023 tentaram destruir backups e 60% dessas tentativas foram bem-sucedidas. Outro dado mostra que o setor industrial foi o principal alvo de ataques, representando 70% dos casos. Esses números mostram que proteger os dados de produção já não é suficiente, é fundamental blindar também as rotinas de backup contra ameaças cada vez mais sofisticadas.
É confortável acreditar que ter uma rotina de backup, configurada em um sistema validado pelo mercado, significa estar seguro. Essa crença se repete com naturalidade nos corredores corporativos. Mas, no mundo real, a maioria das falhas não acontece porque não havia uma ferramenta. Acontece porque havia confiança demais em algo que ninguém estava realmente observando.
Ao longo dos anos, atuando diretamente em operações críticas de dados, me deparei com uma realidade incômoda: sistemas considerados robustos e confiáveis muitas vezes só mostram sua fragilidade quando mais se precisa deles e, justamente nesse momento, falham.
Em uma operação recente, identificamos um ambiente corporativo que acumulava mais de cinco mil falhas em menos de noventa dias. Menos de 40% desses erros foram efetivamente reprocessados. O restante se perdeu entre ruídos de comunicação, sobrecarga da equipe e ausência de acompanhamento estruturado. A gerência sequer sabia e o time técnico, terceirizado e remoto – alocado fora do país –, estava sobrecarregado. O resultado? Pontos de recuperação comprometidos, dados críticos expostos e uma empresa vulnerável. O backup existia, mas a proteção não.
Onde estão os culpados?
O problema raramente está na tecnologia, mas na ausência de governança sobre os processos, na falta de visibilidade sobre falhas rotineiras e na inexistência de alertas efetivos para decisões rápidas. Quando um servidor é removido de uma política de backup sem notificação ou quando uma retenção de cinco anos é alterada para cinco dias por engano, ou mesmo quando os logs deixam de ser analisados por falta de tempo, constrói-se uma ilusão de controle. E nenhuma auditoria se sustenta sobre uma ilusão.
É nesse ponto que entra a inteligência operacional como fator de sobrevivência e não estou falando apenas de inteligência artificial como tendência de mercado, mas como ferramenta prática para compensar falhas humanas. A IA deve ser usada para lembrar do que esquecemos, monitorar o que ninguém tem tempo de olhar e agir quando os sistemas entram em silêncio. A verdadeira continuidade não nasce da capacidade de reagir à falha, mas da habilidade de antecipá-la com precisão. Organizações maduras abandonam a lógica passiva da recuperação e adotam uma postura ativa de prevenção, baseada em leitura contínua de dados, alertas inteligentes, gestão de incidentes e responsabilização clara.
Sem isso, a segurança corporativa se torna um teatro, sustentado por relatórios que ignoram lacunas operacionais e dashboards que mascaram falhas silenciosas. O preço da negligência costuma ser alto, em tempo, reputação e dinheiro.
A falsa sensação de proteção é, hoje, um dos maiores riscos cibernéticos que uma empresa pode carregar. Não porque a falha seja inevitável, mas porque ela é invisível até ser tarde demais. Reconhecer esse risco e enfrentá-lo com transparência, visibilidade e inteligência operacional é o primeiro passo para transformar dados em ativos resilientes e não em armadilhas silenciosas.
Alexandre Paoleschi, CEO da KYMO Investments e fundador da Fenix DFA.






